O cara das tendências

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Trabalhamos com muito amor e empenho pra sempre trazer bom conteúdo aqui no blog do studio[b]. Hoje, compartilhamos aqui a primeira entrevista de uma série que virá!

Vamos lá?

(formato entrevista, ativar!
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esdson

Edson Coutinho contou pro studio[b] um pouco da sua trajetória de vida incrível. Há 18 anos trabalhando na empresa brasileira Tok & Stok hoje ele ocupa o cargo de gerente de design e tendências.

POR LIGIA DUMIT

Com sotaque brasiliense e humildade no tom de voz, Edson é um dos nomes mais importantes hoje dentro da empresa Tok & Stok. Ele conta, com empolgação, como era apaixonado pelo conceito da loja – de levar design acessível para dentro das casas – mesmo antes de ter entrado em uma unidade!

Quando ingressou no curso de publicidade, na UNB, Edson sabia que queria seguir uma carreira mais criativa.

Perguntamos a ele se foi a escolha certa e ele disse que não trocaria a Publicidade por nada, pois foi ai que ele conseguiu juntar o viés artístico com a parte comercial. Combinação que hoje é fundamental no seu trabalho dentro da Tok & Stok.

A humildade de quem sabe onde quer chegar

 

Após se formar como publicitário – e com o currículo diversificado de quem fez cursos introdutórios de japonês, artes plásticas, cênicas e mais mil coisas – durante a faculdade, Edson foi direto do mundo acadêmico para o chão da loja Tok & Stok, que, na época, já tinha um endereço em Brasília.

“Sai da faculdade com diploma e fui trabalhar como vendedor da loja pra compreender exatamente como funcionava a empresa. E ai com esse conhecimento da empresa eu fui crescendo. Um ano e meio depois eu partia para o escritório central da Tok & Stok, na grande SP.”

A vontade de materializar produtos sempre foi o que moveu Edson. Mesmo com um currículo acadêmico extenso, ele sentia falta de saber mais sobre Design. E ai, o publicitário – com certa dificuldade, pois não era da área – entrou numa das primeiras turmas de Design do Senac.

“Esse foi um game changer na minha vida, todos os professores eram profissionais do ramo, os irmãos Campana, Camila Fix, Guto Lacaz, eram alguns dos nomes que estavam passando todo seu conhecimento.”

E aos poucos, ele foi atingindo seu objetivo final de desenvolver produtos. Na entrevista a seguir, Edson conta um pouco sobre a sua trajetória, o seu trabalho dentro da Tok & Stok, e fala de economia, indústria e claro, tendências!

A Tok & Stok

Conta pra gente um pouco do seu início no escritório da Tok & Stok, em SP. Logo que eu comecei no escritório central eu fazia um trabalho que estava entre a publicidade e a minha vontade de desenvolver produtos, que era a criação dos ambientes para os catálogos.

A partir dai comecei a entender como funcionava a coleção, o que eu poderia acrescentar, o que fazia falta. E ai eu comecei a auxiliar na área de design, e foi quando eu recebi o convite pra entrar nas tendências que era um cargo que estava vago há três anos.

E como foi esse começo a frente das tendências? Eu fiz um grande trabalho inicial que foi organizar a coleção em doze estilos diferentes. Baseados nos estilos de decoração, de design, mas também baseado no perfil do consumidor – sobre o qual eu pude pesquisar um pouco mais ali na linha de frente de quando eu trabalhei na loja.

Inclusive, esse trabalho deu a Tok & Stok, em 2005, o primeiro lugar no Prêmio GIA – Global Innovator Award, como o trabalho mais inovador no varejo de móveis e decoração no mundo. E esse prêmio valeu muito, talvez se lá no começo eu tivesse me dedicado apenas a uma formação mais técnica do design, eu talvez não tivesse alcançado tudo isso.

O seu dia-dia dentro da empresa, como é? O trabalho que eu desenvolvo hoje é o mesmo de quando eu iniciei nas tendências, com algumas alterações claro, mas hoje aqui eu não desenho, não projeto como um designer, mas eu oriento a criação de toda a equipe, faço toda a organização da coleção – que é quase que como uma direção de arte, uma atividade muito paralela com a publicidade – tanto pra parte de móveis como de acessórios, mas eu chefio diretamente a equipe (seis designers) de acessórios, que é onde as tendências acontecem com mais rapidez, que tem uma velocidade maior de atualizações.

No site da Tok & Stok dá pra ver as 12 tendências criadas por Edson
No site da Tok & Stok dá pra ver as 12 tendências criadas por Edson

Muitas viagens? Viajo todo ano para a China, Frankfurt, Hong Kong – que são as maiores feiras de houseware e decoração. Alguns anos intercalados vou para Chicago, Índia e outros centros que eu visito não somente para selecionar produtos mas para visitar fábricas, showroom’s.

É um trabalho que hoje é muito mesclado com a área comercial, o que é bom, por ser algo que eu queria lá no início.

O que você mais ama dentro do seu trabalho como gerente de design e tendências? O que eu mais amo é poder ver aquilo que eu criei e desenvolvi, nascer. Essa é a melhor parte, primeiro quando você vê os protótipos, depois chega na loja e vê esse produto sendo consumido, ver posts em blogs ou uma matéria em revista. Isso ai é como um pai orgulhoso vendo o filho se formar! É muito gratificante ver as pessoas utilizando aquilo.

E a parte mais difícil? Obviamente a parte mais desafiadora é a econômica mesmo. Conseguir um valor acessível para que as pessoas possam consumir. As negociações são partes mais desgastantes. E ai num momento desse de recessão e crise, esses desafios se tornam maiores, mas vivemos de desafios… criar é isso.

As tendências

Podemos dizer que tendência é a consequência de uma atitude atual? Você concorda com isso? Concordo e discordo (rs)! Eu acho que a tendência é o que a própria palavra significa: uma inclinação, uma indicação a. O produto é a consequência, mas a tendência é uma seta que aponta para um caminho. E esse caminho, claro, está influenciado por tudo o que acontece agora, mas também com tudo o que aconteceu num passado recente, num passado remoto e tudo o que está em desenvolvimento também. Então eu realmente enxergo tendência como um caminho apontado e o produto final sim como uma consequência desse caminho apontado.

E aonde as tendências saem primeiro? Na moda, na tecnologia? Na verdade em todos os lugares! Na moda, tecnologia, arte, acontecimentos históricos, políticos. As pessoas tem muito na cabeça que tendência é uma cor, é uma estética, mas tendência é um comportamento, um desejo do consumidor.

A tecnologia influencia, óbvio… ainda mais no momento atual, onde a tecnologia é um grande percussor de novos comportamentos, mas a cultura, a moda, cinema, teatro, as artes plásticas também transformam a gente.

Então a moda é um dos vetores, a arte é um outro grande vetor que questiona e transforma, a tecnologia e a ciência transformam o nosso dia a dia. Todos esses setores alimentam as transformações comportamentais do consumidor, que somos todos nós. A cor, a roupa, o móvel talvez sejam um dos sub produtos finais de uma corrente comportamental.

As tendências tem prazo de validade? Pra falar sobre duração de tendências, eu vou traduzir pra duração de estilos, de cores, isso varia muito (rs)! Acredito que elas se transformam.

Obviamente se estamos falando de algum estilo específico por exemplo: cores fortes, cores pastel, cores neon, isso sim pode ter um tempo de duração de consumo mais por uma necessidade do mercado de se reinventar. Mas o próprio mercado tá reavaliando o que é o consumo.

Enfim, com todos os blogs, as fast-fashion, as pessoas não querem esperar muito pra consumir. Elas querem ter o desejo e consumir na mesma hora. E ao mesmo tempo em que isso acontece elas querem que o produto fale mais a respeito da sua personalidade, do que simplesmente comprar a cartela de cores daquela estação e depois comprar tudo de novo.

Você enxerga uma dependência das pessoas por tendências? No sentido de se pautar pelas tendências no decorar e no se vestir. Eu acredito que informação é algo que conquistamos. A sociedade atual conquistou o direito a informação. Claro que depende muito da sua maturidade, de como você consome, mas eu enxergo cada vez menor uma dependência sobre tendências e mais uma necessidade de informação e adaptar aquilo pra você, no decorar e no vestir.

É óbvio que num mercado jovem como o brasileiro e que o consumo se desenvolveu em grande escala há poucos anos as pessoas começam a ter acesso a muita informação do pinterest, dos blogs e conseguir reproduzir aquilo com as marcas de consumo rápido é fantástico.

Mas, eu não enxergo como uma dependência, eu enxergo como um consumidor se conhecendo, testando, e de repente ele pode chegar a conclusão de que não é pra ele, ou que uma peça ele pode continuar usando mesmo quando sair da modinha. Eu sou a favor da liberdade! Liberdade total..

E agora, mata nossa curiosidade, qual a próxima tendência que você visualiza? É difícil eu falar alguma coisa que eu não vá abrir mão de algum segredo (rs)! O que eu posso te dizer é o seguinte, as pessoas estão procurando consumir com mais significado.

Eu acho que o novo consumo é um consumo com significado. Se você compra algo que significa alguma coisa ou que carrega alguma história, isso tem a chance de ser descartado com muito menos facilidade. Isso vai desde toda uma pesquisa de matérias primas ecologicamente corretas, mas parte também pra outros aspectos mais afetivos em relação ao produto. Eu acredito que todas as tendências, todos os estilos estão passando por essa reformulação, do conteúdo sobre a matéria.

Indústria e economia

Tem como quantificar quanto tempo as tendências, que vem da moda, tecnologia, arte etc, demoram para chegar no mercado mobiliário? Pra chegar no mobiliário vai depender da indústria do mobiliário. O quanto essa indústria quer investir nisso, se arriscar, pois pode ser que o seu investimento não retorne tão rápido ou não retorne mais, mas se por um acaso ele estiver no caminho certo pode ser percussor de diversos movimentos, sair primeiro e virar até sinônimo daquele determinado produto.

Claro que quem investe em pesquisa, em desenvolvimento, em criação, vai criar fatias de mercado que não existiam antes! E isso sim vai alimentar a grande roda da tendência.

Será que o Brasil deixou passar a sua vez de virar tendência? Eu não acho que o Brasil deixou de passar a vez de virar tendência, eu acho que o Brasil tropeçou. Tendência não é uma ciência exata, na verdade é muito voltado para acontecimentos e até pro comportamento do consumidor.

Nós estamos passando por um momento muito complicado tanto no cenário interno como no cenário mundial de crise econômica, mas principalmente de política. E isso afeta a imagem do Brasil. Como nós vamos vender a marca Brasil se os exemplos e as situações que estamos mostrando pro mundo são vergonhosos?

Tivemos um boom sim, principalmente no momento em que entramos nos BRICS, e a gente tinha muito a mostrar, porque temos! É uma cultura rica, é um povo maravilhoso, mas a marca Brasil enquanto produto está manchada. Não acho irreversível, pelo contrário, acredito muito no potencial do nosso Brasil!

E sobre as indústrias brasileiras, tem fôlego para competir com os produtos chineses? O parque industrial brasileiro é grande comparado a outros da América Latina, mas ele já foi melhor, já tivemos muitas outras empresas dispostas a arriscar e encontrar o seu nicho de mercado e que hoje já não existem mais devido a invasão chinesa e também as dificuldades financeiras do nosso país.

Então eu acho que o Brasil hoje com o câmbio desvalorizado tem uma excelente vantagem em relação a outros mercados exportadores porque nosso produto ficou mais barato, simplesmente por uma questão cambial. É algo que se pode aproveitar. Se isso vai se sustentar, talvez não, então também temos que investir em tecnologia.

Acho que poucas empresas sobraram no Brasil, principalmente na questão de houseware, objetos de casa, mas elas estão crescendo porque o mercado consumidor existe e é forte no Brasil.

Eu acredito que partindo do lado econômico, em qualquer área, pra sobreviver tem que investir em produção, em tecnologia, em design. O Brasil passou um bom tempo acomodado nesse mercado fechado em que o consumidor não tinha acesso a outras novidades e o brasileiro era obrigado a consumir aquele produto produzido daquela forma, nem tinha a opção de desejar. Na década de 80 eram pouquíssimas marcas de tudo quanto é categoria de produto, mas hoje pós abertura, pós invasão chinesa, pós fechamento de diversas indústrias no Brasil, eu acredito sim na indústria brasileira e nesse renascimento através do design.

Edson, e o design brasileiro? Como fica nessa questão econômica, quais os desafios? O desafio maior para competir com o chinês, não é a criação em si, o design-arte, e sim o design em série pra classe média, classe média B e até C. Esse é o maior desafio e onde acho que temos capacidade de grande crescimento. É muito comum você ouvir as pessoas dizendo que o design brasileiro está em alta, mas quando você vai ver os produtos são de luxo. Tem seu mérito, obviamente é uma criação muito importante, fala da nossa cultura, resvala na arte, mas é para um público muito pequeno.

A Tok & Stok já nasceu com a premissa de que o design não deve ser caro. Sempre existiu design brasileiro, o brasileiro é um povo criativo, mas era difícil. Existiram claro algumas iniciativas como com Michel Arnout, a própria Oca do Sérgio Rodrigues, de produzir-se em uma série maior, de tentar viabilizar o design pra um mercado maior, mas era muito mais fácil produzir algo pra um público mais seleto, de poder aquisitivo maior. Um produto de luxo. Hoje existem inúmeras iniciativas nesse sentido de um produto que não é acessível pro grande mercado. Anteriormente esses produtos eram todos importados da Europa, das grandes marcas de design, hoje em dia pode-se valorizar a nossa cultura e ter também esse potencial agregado do design nacional, mas não deixam de ser produtos caros.

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