Passos firmes

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A segunda entrevista da nossa série aqui no blog do studio[b] traz pra vocês uma conversa super bacana que tivemos com Adriana Pedroso – da marca de sapatos Masqué.

Vem conferir!

(formato entrevista, ativar!
… download completo!)

dri

Adriana Pedroso contou pro studio[b] a sua corajosa trajetória como criadora e dona da original marca de sapatos Masqué, hoje com duas lojas em São Paulo.

POR LIGIA DUMIT

Com animação na voz e uma risada gostosa Adriana atende o telefone. Primeiro ela se queixa sobre a qualidade da ligação, e eu aviso que não vou poder tirar do viva-voz, pois preciso gravar a entrevista. Pra ela, nada parece ser um problema “tudo bem, pode deixar, mas se eu não entender eu vou ficar ãn? Te perguntando”.

Por mim também não tem problemas : )

Adriana Pedroso se formou em desenho industrial em 2002, pela Belas Artes. Estudou junto com o Edu durante a faculdade, são grandes amigos.

Logo que saiu da universidade, Dri conseguiu um trabalho numa grande empresa de embalagens. Ela dava muito valor por estar empregada, mas não gostava do que fazia. Foi nesse cenário que ela visualizou uma oportunidade que seria apenas o começo da sua trajetória como designer de sapatos.

“Eu sempre tive vontade de morar fora, sempre quis passar um tempo em Londres. Dai eu pensei: sou nova ainda e não gosto do meu trabalho… se eu não for agora eu não vou mais. Dai eu peguei minhas coisas, acho que isso foi em 2004, e fui pra Londres.”

E foi lá, na terra da rainha, que Adriana teve um estalo! Se encantou pelo mundo dos calçados e decidiu que era isso que ela queria fazer: desenhar sapatos.

Sem olhar pra trás

Com passos firmes e sempre muito determinada ela foi atrás da sua vontade. Fez cursos na renomada instituição Saint Martins, em Londres, e descobriu que abriria em Barcelona a primeira turma em design de sapato, no também renomado Istituto Europeo di Design – IED, e lá se foi ela novamente, dessa vez, morar em Barcelona.

“Esse mestrado foi ótimo! Lá eu aprendi a fazer o sapato a mão, coloquei a mão na massa o que hoje pra mim é ótimo porque eu tenho uma base excelente pra conversar com a minha equipe de artesãos.”

No final de 2005, Adriana já estava com planos de voltar pro Brasil e tinha uma carta na manga. Ainda em Barcelona, ela entrou em contato com a marca de sapatos brasileira Sarah Chofakien e ofereceu à grife pra fazer o seu trabalho final do mestrado inspirado neles.

“Enquanto os outros alunos queriam fazer o projeto pra Prada e outras marcas grandes – que é mais um projeto fantasia – eu pensei: bom, eu vou voltar pro Brasil deixa eu pegar alguma marca que eu goste pra fazer esse trabalho.”

A sacada de Adriana rendeu frutos. Assim que ela chegou no Brasil já tinha uma entrevista marcada com a Sarah pra apresentar o projeto e saiu de lá empregada! Foram cinco anos na empresa, até que … “Quando eu sai da Sarah eu tomei essa decisão de abrir a minha própria marca porque eu queria novos desafios.”

Na entrevista a seguir a Dri nos conta um pouco sobre como é estar a frente da Masqué! Vem ver que marca bacana.

A Masqué

 

Como foi a trajetória inicial da Masqué? A marca Masqué existe desde 2010. Eu abri a loja com a intenção de fazer um atacado, só vender pra multimarca, mas dai rápido já mudei de ideia porque as pessoas passavam pelo showroom, que era no prédio das Heras, e se interessavam, queriam comprar. Dai eu falei: Opa! To perdendo um nicho ai né, to deixando de ganhar dinheiro. Dai virou o varejo, que hoje é o mais forte que eu tenho. Já o e-commerce foi criado no final do ano retrasado.

A marca ficou famosa pelo delivery de sapatos. Vocês ainda fazem? E como funciona? Fazemos sim! É um trabalho nosso bem forte porque hoje quanto mais comodidade você dá pra cliente, melhor, mais VIP ela se sente e é assim que a gente quer que ela se sinta mesmo! O delivery começou na verdade de boca em boca, as clientes falavam: “não tenho tempo pra ir”… e ai começamos a responder “a gente deixa na sua casa!” e começou a fazer tanto sucesso que depois desenvolvemos uma linha específica pra mandar pra casa das clientes e virou um nicho muito grande da marca hoje.

Pro delivery a gente coloca os sapatos – de nove a dez pares – numa malinha da Masqué e mandamos pra casa das clientes. Geralmente a tarde ou no dia seguinte de manhã vamos retirar.

Hoje existe um movimento no qual as pessoas questionam a procedência dos bens de consumo, principalmente na moda – temos o fashion revolution day com a #whomademyclothes e inclusive o tema do SPFW desse ano foi “mãos que valem ouro” – a Masqué tem um quê super manual, mas qual é a atitude da marca em relação a esses movimentos? Vocês aplicam algum conceito de sustentabilidade? Acho assim, não adianta eu falar: “não vou usar o couro… vou usar o sintético” isso não vai funcionar pro meu sapato. Não vai ter a mesma durabilidade e nem a mesma qualidade. Apesar dos couros que nós usamos serem todos de uma procedência sabida.

Enfim, e o que nós fazemos pra couros mais específicos de cobra ou de jacaré, nós não usamos a cobra ou o jacaré, nós usamos a pelica de cabra que é nossa matéria principal e aplicamos texturizações pra ficar com o aspecto dos outros couros.

Outra coisa são nossas fábricas. Nós trabalhamos com pessoas de todas as idades, inclusive com idade avançada. Tem gente de 70 anos trabalhando e também pessoas mais novas. A Masqué emprega essas pessoas que teriam muita dificuldade hoje de conseguir um trabalho pela idade e tudo o mais.

Os sapatos

A marca trabalha com artigos importados para compor alguns dos sapatos. Como é isso? Pra cada lugar que eu viajo eu pesquiso ou as vezes é de bater o olho mesmo, mas eu acabo encontrando alguma coisa que me atrai. Ou uma fita diferente, um tecido ou até mesmo um material.

Tem até um sapato que é um clássico da Masqué, o sapato Helena, e ele é feito de brinco! Eu estava andando em Paris e vi numa loja um par de brinco ai eu falei: “não, gente eu tenho que desmontar esse brinco e vai virar um sapato maravilhoso!” e acabou que virou um clássico nosso!

o sapato Helena
o sapato Helena

Então com esse trabalho os sapatos ficam super exclusivos. Quando eu compro alguma coisa fora eu não compro em grandes quantidades então as vezes fazemos seis sapatos, as vezes doze, mas é o máximo daquele mesmo jeito. E acabou, acabou! Essa exclusividade é uma pegada legal da Masqué.

Nessa mesma pegada da exclusividade, o Edu comentou que você já fez uma parceria com a Tez Living Style, empresa que desenvolve tecidos exclusivos. Conta pra gente. Ahhh, já! Foi ótimo! Faz uns dois dias que eu usei o meu sapato que fizemos com o tecido da Tez e todo mundo elogiou! Ele tava lá escondidinho no armário, porque é de uma coleção mais antiga, eu tirei, usei e todo mundo amou.

Ai eu pensei: “gente, preciso fazer esse sapato de novo! Criar alguma outra coisa!”. Além de ser bom pela parceria o sapato com tecido é uma coisa diferente, um produto mais criativo que ninguém tem. Porque os tecidos da Tez são super exclusivos e o sapato a gente não faz com qualquer tecido porque não vai dar a qualidade e o deles deu super certo!

o sapato em parceria com a Tez
o sapato em parceria com a Tez

Os sapatos da Masqué você considera mais moda ou mais design? Nossa, agora você me pegou, hein! Na verdade eu considero mais design do que moda. Vou te explicar o motivo. Apesar de obviamente ser moda porque é sapato!

Eu tenho a minha identidade muito forte nos sapatos e eu não sou uma pessoa aficionada por moda e que sigo aquela tendência porque aquilo está forte. Então eu faço o que eu gosto o que eu acho bonito e o que eu acho que minhas clientes vão achar bonito. Os sapatos da Masqué são daqueles que podem ser guardados pra vida toda porque ele não é datado, é atemporal. Então eu acho que os sapatos da Masqué são mais um objeto de design.

Adriana

Como uma designer de sapatos, onde você mais gosta de buscar inspiração? Eu acho que em tudo! É até engraçado porque eu não tenho hora pra criar. Se eu tenho uma ideia as três da manhã eu vou anotar aquilo – sempre tenho um caderninho ou na bolsa ou na cabeceira.

Mas, viagem claro que é uma fonte de inspiração absurda né porque se vê muita novidade. Uma vez eu estava em Buenos Aires, num restaurante, e eu olhei a cadeira que tinha um desenho em arabesco e eu pensei: “nossa, preciso transformar isso num sapato!” e assim eu vou criando.

No andar na rua, no dia a dia eu acho que eu tenho muita inspiração. Me inspiro muito na cidade de SP mesmo que tem muita coisa boa, o Brasil em si né. Eu abri a minha segunda loja há um ano e a coleção de abertura da loja foi inspirada na floresta amazônica. Tem sapato com papagaio, tucano… foi uma coleção que deu o grande boom da Masqué e inspirada totalmente no Brasil.

Porque optou pela faculdade de design? E não moda? Na verdade quando eu prestei desenho industrial eu também prestei moda. Eu iria fazer moda a noite, mas na hora de entrar eu pensei “não vou fazer duas faculdades, acho desnecessário” e o design me atraiu mais porque eu pensei que teria muito mais base pra tudo do que se fizesse só moda.

Desenhar coisas sempre me atraiu. E hoje eu olhando pra trás não me arrependo em nada. Acho que eu fiz a faculdade certa que eu tinha que ter feito e acho que se eu tivesse feito moda – no meu caso que é sapato – eu não teria a mesma visão que eu tenho hoje. Além do que a moda hoje no Brasil é muito mais específica pra roupa do que pra sapato.

sandália Leisham - inverno 2016
sandália Leisham – inverno 2016

O mercado

Como foi abrir a segunda loja num ano de recessão econômica que foi 2015? Foi tenso! Eu tava com essa vontade e já estava nos planos de crescimento da empresa, mas eu parei e repensei.

Mas, ao mesmo tempo eu lembro que foi até uma frase do meu marido “é na crise que a gente tem que aproveitar e conseguir oportunidades” e foi isso mesmo. A loja é na Peixoto Gomide eu considero que é o quarteirão mais charmoso do Jardins e na época tinham alguns imóveis vagos, o que antes não tinha. Ai, foi possível fazer uma boa negociação com o proprietário. Essa foi uma das vantagens.. dai eu falei: “vamos nessa, vamos de cabeça”.

A crise tem que virar oportunidade porque senão você para, vai estagnar e não vai crescer. E a crise a gente sabe que existe, mas tem que trabalhar pra vencer, né. Mas a crise acho que tá no mercado todo, eu sinto o movimento da rua! Talvez não das clientes diretas da Masqué, mas assim o movimento da rua das pessoas entrando nas lojas.. eu vejo que isso diminuiu.

sapato Palácio Potala Panda - inverno 2016
sapato Palácio Potala Panda – inverno 2016

A Masqué tá indo bem? A Masqué tá bem! A marca em si tá crescendo bastante. Mas, eu vejo que tem clientes que vem direto pra Masqué. Elas vem e entram direto aqui na loja, mas elas não andam pela rua pra passear. Elas fazem uma compra mais específica, mais direta… preciso daquilo vou atrás daquilo! Não querem dar muita chance pra olhar pro lado pra não cair em tentação! (risos). E aqui, querendo ou não tem um monte de marca legal.

sapatilha panda - inverno 2016
sapatilha panda – inverno 2016

Participaram do último SPFW? No último a gente não participou. Já estivemos em alguns desfilando com a Fernanda Yamamoto, mas esse ano e o ano passado não participamos mais. Temos planos de participar em próximos sim, mas uma coisa mais estruturada pra Masqué ficar mais em evidência, alguma coisa mais impactante!

A última coleção da Masqué foi inspirada na China. Cores mais sóbrias como preto, verde militar e tons de vermelho compõe os sapatos. As três fotos ai em cima também fazem parte da coleção… e olha mais algumas pra dar vontade:

coleção outono inverno 2016 com Paola De Orleans e Bragança
coleção outono inverno 2016 com Paola De Orleans e Bragança

masque 3

masque 4

Pra finalizar, já que você viaja bastante, dá alguma dica pra gente? Eu fiz uma viagem no final do ano passado pelo Rio Mekong, do Camboja pro Vietnã, foi incrível! Fiquei quatro dias a bordo de um barco e fui conhecendo as comunidades ribeirinhas de lá.

Uma coisa que me impressionou foi como eles fazem a economia se mexer, como eles usam o rio, existe um comércio no rio. Noite e dia dá pra ver o movimento de barcos e canoas.

Além da paisagem maravilhosa foi uma viagem emocionante porque você vê uma pobreza grande, mas ao mesmo tempo uma alegria, um esforço, uma união de todo mundo. E ai eu até comparei com o Brasil, né. A gente tem tanta água, tanto rio, mas os rios do brasil não tem esse movimento. Podíamos explorar muito mais os nossos rios de uma forma boa.

A seguir, algumas fotos da viagem!

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Quem quiser conhecer a Masqué pessoalmente, vai lá:

Rua Joaquim Floriano, 111 – Sala 5
São Paulo, SP.

OU

Rua Peixoto Gomide, 1789
São Paulo, SP.

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